PEQUENO
APONTAMENTO SOBRE A CAPELA DE S. LOURENÇO
A interessante
fotografia publicada na página 23, do último número do jornal O
Concelho da Murtosa, suscitou-nos o interesse de escrever algumas
linhas com dados históricos da capela de S. Lourenço, em Pardelhas. Aqui
os tem o leitor que, com um pouco de paciência para os ler, esperamos
possa ficar com uma ideia geral dos sucessivos templos com a mesma invocação
e pistas para ir mais além.
Diz D. Rodrigo da
Cunha, no Catálogo dos Bispos do Porto, 1623, que no Curado de
Santa Maria da Murtosa, com 698 habitantes, anexo à Reitoria de Beduído,
há uma única capela, que é a de S. Lourenço. Difícil será saber-lhe
de mais antigos antecedentes, por escassez de fontes. As escrituras
notariais de Estarreja, no Arquivo Distrital, não vão além de 1700, e
as de Ovar, onde se conhecem diversas escrituras marinhoas, iniciam-se em
1654. No mesmo arquivo, os registos paroquiais da Murtosa, dos quais
interessam mais os óbitos para o assunto em causa, iniciam-se em 1667
(baptismos), 1668 (casamentos) e 1668 (óbitos). Os registos da Matriz de
Beduído não vão muito mais longe: 1612? (baptismos), 1654 (casamentos)
e 1612? (óbitos). Pouco além se poderá ir, pois, do que informa D.
Rodrigo da Cunha acerca da antiguidade do templo. Digamos que será pelo
menos anterior a 1623.
O Pe. A. Carvalho da
Costa, na Corografia Portuguesa, 1708, nada mais adianta,
limitando-se a confirmar a existência de uma única capela na Murtosa. Já
a memória paroquial de 1758, publicada pelo Dr. Eduardo Costa no
vol. 34 do Arquivo do Distrito de Aveiro, contribui com mais
qualquer coisita. A capela de S. Lourenço é pública, tem três
confrarias (S. Lourenço, S. João Baptista, D. Domingos/S. Luís) e não
há romagem, nem nesta nem em qualquer outra da Murtosa.
Dá-nos abundante
informação das capelas que se sucederam com a mesma invocação o Dr.
José Tavares (N.M., IV, 1994, pp. 115 e ss.). Este nosso distinto conterrâneo
teve acesso a diversos documentos particulares, os quais pôs em evidência
juntamente com algumas ilustrações, de fotografias, postais e um mapa
local. O erudito investigador indica a localização da capela apenas
desde 1785, presumivelmente a original, próxima ao antigo edifício da Câmara
Municipal, tendo aí estado até 1841. Este templo foi substituído por
outro, que durou de 1841 a 1884, situado no canto sul-nascente da praça
de Pardelhas. Porque mal localizado, com prejuízo da estrada que lhe
passava em frente, a própria Junta substituiu o edifício por um novo, em
1885, situado por alturas do quiosque que actualmente está na praça.
Esta terceira casa,
que é a mesma que vem na fotografia da última edição d’O Concelho
da Murtosa, tinha o aspecto que se vê na primeira figura aqui
reproduzida, a qual faz parte da primeira colecção conhecida de postais
do concelho de Estarreja, editada em 1904. Reproduziu-a o Dr. José
Tavares nas Notas Marinhoas e tem da mesma gravura uma cópia a Câmara
Municipal. Como se vê, apresenta a capela ainda sem torre, isto é, antes
da beneficiação feita em 1905 a expensas de Angelo Amador Leite,
enriquecido no Brasil. Desses melhoramentos, que alteraram a fachada e
acrescentaram uma torre com relógio, fez na época eco a imprensa local.
Disso demos conta ainda recentemente, consultando por outras razões números
antigos d’O Concelho de Estarreja, e talvez se tenha escrito algo
n’O Jornal de Estarreja, que são os dois jornais do concelho de
Estarreja naquele tempo. De memória, temos ideia que o Jornal da
Murtosa, fundado em 1901, já não se publicava, e O Povo da
Murtosa só seria fundado um pouco mais tarde. Pode admitir-se que nas
décadas de existência dos jornais O Concelho da Murtosa e Progresso
da Murtosa alguma coisa se tenha impresso nas suas colunas com
interesse para o caso. A segunda figura que reproduzimos, também dum
postal, é posterior ao melhoramento, como é evidente. Não sabemos ao
certo a data da sua publicação mas o exemplar aqui reproduzido circulou
pelo correio em 1909.
Construíram-se e
demoliram-se três capelas, para finalmente darem lugar a uma igreja de S.
Lourenço, concluída, como diz A. Nogueira Gonçalves, no Inventário
Artístico de Portugal (Aveiro Norte, 1981), em 1939.
M. P., in «O Concelho
da Murtosa», Setembro de 2005
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